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Pela janela de seu quarto, Seth observava a casa da piscina. Ele não conseguia dormir. Não estava certo sobre o que pensava a respeito daquele garoto dormindo no seu quintal. Ele realmente precisaria conhecê-lo?Enquanto andava pelo seu quarto, Seth ficou pensando em que tipo de problemas o garoto estava envolvido. Queria saber se Ryan era durão e cruel -- ele tinha lido em algum lugar que depois de passarem pelo sistema carcerário alguns criminosos se tornavam duros, insensíveis e praticamente incapazes de pertencer a uma sociedade normal. Seth achava que já deveria ter se acostumado com isso; afinal, seu pai era defensor público e lidava com criminosos o tempo todo. Mas ele nunca tinha trazido trabalho para casa. E Seth nunca tinha conhecido alguém que tivesse estado preso, principalmente alguém da sua idade que tivesse estado preso. Seth ficou refletindo sobre o que esse garoto teria de tão especial -- por que seu pai o teria trazido para casa? Por que ele estaria dormindo na casa da piscina? Eles tinham outros cinco quartos que nunca usavam.Seth tentou tirar Ryan da cabeça enquanto voltava a ler seu novo livro, Franny e Zooey, de JD Salinger. Ele tinha pegado o livro naquela tarde, depois de dar uma aula de vela no porto.
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Havia alguma coisa em Franny que o intrigava. Ele gostava da sua desconfiança dos caras que levavam a garota certa ao bar certo e ao jogo certo no fim de semana. O livro satirizava os padrões da sociedade, e ele adorava, porque ele próprio não se enquadrava nesses padrões. Sentia afinidade com a forma como ela categorizava as garotas no trem pelas escolas onde estudavam, porque ele fazia a mesma coisa. Ele conseguia andar de skate pelo píer ou pela orla e reconhecer os jogadores de pólo aquático, as debutantes, os estudantes do pacífico, os surfistas maconheiros e os garotos que viviam nas ruas numeradas. Newport era cheia de rótulos. O jogo era fácil para ele. E não porque gostasse dos rótulos, mas porque achava interessante que todos os outros jovens gostassem. Eles viviam para esses rótulos.
E Seth não tinha um rótulo. Na verdade, para a maioria das pessoas ele nem existia. Quer dizer, as pessoas sabiam que ele existia, mas ninguém conhecia o verdadeiro Seth Cohen. Ele era o capitão da equipe de vela. Clube dos Quadrinhos. Sociedade de Prevenção de Filmes. Mas era o único membro das três. Lembrava-se de como praticamente havia implorado a seus pais para que o deixassem ir para algum colégio interno nesse ano, mas eles se recusaram a atender o seu pedido. Disseram que uma família devia permanecer unida e que não era certo um garoto crescer sozinho, longe de sua casa. Seria muito duro. Mas o que eles não entendiam é que a vida ali também era dura. Nesse momento, se o tivessem deixado ir estudar fora, ele já teria partido para pegar o início do ano escolar e não voltaria para casa até o dia de Ação de Graças. Infelizmente, ele estava aqui. E agora precisava lidar com Ryan e o iminente ano escolar em Harbor. Não era exatamente essa a sua idéia sobre a idílica vida em Newport. Mas ele esta preso ali. Seth foi até seu aparelho de som e colocou sua cópia em vinil de The Cramps. Estava prestes a aumentar o volume quando ouviu um som fraco.
Pela abertura da porta de seu quarto, Seth podia ouvir seus pais conversando no andar de baixo. Suas vozes distantes sussurravam como uma brisa no verão.
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-- Prometa para mim que será só este fim de semana. Não somos um abrigo, Sandy. Você viu os olhos dele? Estavam tão vermelhos e... pareciam tão...
-- Tristes. – Sandy disse, completando a frase de sua esposa.
-- Não era isso o que eu ia dizer, mas tudo bem.
-- Ele está completamente sozinho. Não tem ninguém.
Seth aproximou mais o ouvido da abertura. Ele sabia como era se sentir triste e sozinho. Talvez ele e Ryan tivessem alguma coisa em comum, pensou. Talvez pudessem se tornar amigos. Sair. Fazer coisas de meninos, juntos. Velejar. Procurar garotas. Andar de skate. Ler histórias em quadrinhos. Jogar vídeo-game. Essa coisa de amigo era tão nova para ele. Seth nunca tinha tido um amigo de verdade. E talvez isso nunca fosse funcionar da forma como ele esperava, mas a idéia de que ele, Seth Cohen, pudesse ser amigo de um criminoso durão... era um pensamento interessante.
-- E ele não tem ninguém por que ele...? – Kirsten começou.
-- Roubou um carro. Com seu irmão mais velho – Sandy respondeu sucintamente.
“Melhor ainda”, Seth pensou. Um ladrão de carros. Durão e descolado. Isso podia quase valer o fato de não ter ido para o colégio interno. Se ele aparecesse na escola, no outono, tendo Ryan como amigo, conseguiria algum respeito.
-- Ele não é uma mente criminosa. Você precisava ter visto a mãe: bêbada e falando palavrões. E o coitado ali, em pé. Perdido. Incerto de si próprio e da situação. Kirsten, eu não podia simplesmente abandoná-lo, ela o expulsou de casa.
Seth não esperava que seu pai dissesse uma coisa daquelas. Ele estava esperando por drogas, álcool, sexo e festas. Coisas de criminosos de verdade. Talvez ele e Ryan não tivessem assim tanta coisa em comum. Como ele conversaria com um garoto que havia sido expulso de casa pelos pais? Ele não conseguia imaginar seus pais expulsando-o de casa, abandonando-o. A vida sem seus pais era algo inconcebível, e ele tinha uma imaginação enorme. Para onde ele iria? O que faria? Até onde conseguiria ir de skate?
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Ele não tinha carro e o veleiro estava reservado para Summer. Se ele fosse expulso, ficaria completamente perdido.
Provavelmente, acabaria se escondendo em um dos novos empreendimento de seu avô. Em alguma mansão que ainda não estivesse pronta. Sem televisão ou aparelho de som. Quase em completo isolamento.
-- Seriamos só nós dois, Capitão Aveia – Seth disse para um pequeno cavalo de plástico que tirou de sua estante e colocou na escrivaninha. Olhou para seu celular. Nenhuma ligação perdida e a agenda de telefones estava vazia. – Suponho que isso não seja estranho, huh?
Seth conectou seu iPod ao computador e começou a baixar algumas músicas novas.
As vozes no andar de baixo silenciaram. Os únicos sons agora eram dos grilos e das ondas arrebentando na orla bem distante. A brisa do verão batendo nas árvores. Suas folhas verdes batendo na janela.
Seth espiou o quintal pela janela. “O que dizer a Ryan?”, ele precisava de um plano. Algo que o fizesse parecer descolado e controlado. Não nervoso e estranho. Algo que o transformasse no anti-herói super-herói. Tudo o que ele sempre sonhara. “Mas como”, ele pensava. Esse plano precisava ser melhor e mais consistente do que o plano de velejar para o Taiti com o amor de sua vida, Summer Roberts. E ele vinha trabalhando nesse plano desde a terceira série. Ele estava perdido.
O plano da Summer vinha sendo trabalhado desde o dia em que ela entrara em sua sala na terceira série. Ela se sentava duas carteiras à frente dele e todas as manhãs ele a observava guardando o Meu Querido Pônei embaixo da mesa. Ela acariciava seu cabelo, dava um beijinho em sua cabeça e guardava de novo, enquanto a professora não estava olhando. Seus pais estavam se divorciando naquele ano, e uma manhã ele viu o pai dela lhe dando esse pônei. Foi quando Seth descobriu a verdadeira Summer. A Summer sensível, que era inteligente, graciosa e vulnerável. A Summer por quem...
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...ele se apaixonou. A Summer que ele sabia existir por trás das roupas de estilistas e da popularidade que ela tinha atualmente. A Summer com quem ele um dia iria conversar e velejar para o Taiti.
Mas Ryan não era Summer. Ele não tinha um plano feito para o Ryan. Isso seria difícil. Ele tinha um plano para Summer. E mesmo assim jamais conseguira entrar em seu campo de visão. Também aqui, ele não estava no campo de visão de Ryan. Talvez conseguisse evitar Ryan durante todo o fim de semana. Esconder-se pela casa. Pegar um pouco de cereal. Esconder-se no andar de cima. Puxa, quem é que ele queria enganar? Ele precisaria conversar com o garoto. E o que iria dizer? Eles não tinham nada em comum além do fato de serem solitários. E, por mais reconfortante que isso parecesse, a solidão não tinha lhe dado nada até então.
Seth precisava de um plano real. Um plano a prova de besteiras, com cem por cento de chances de sucesso.
-- Então, Capitão Aveia. O que vai fazer? O plano? Um carro novo? Uma edição rara da Mulher Maravilha? Um engradado de cerveja?
Mas o cavalo não respondeu.
-- Bonecos. Quando preciso de sua ajuda você fica quieto.
Seth levantou-se da cama e começou a vasculhar as gavetas de sua escrivaninha. Mas não havia nada lá. Nenhum plano sobre como conversar com criminosos. Nenhum livro sobre como fazer amigos. Só um monte de mapas e tabelas de marés. Sextantes e folhetos sobre o Taiti. Se Summer fosse uma criminosa, ela seria sua melhor amiga.
Ele precisava de mais tempo. Que valesse por nove anos. E ele tinha aproximadamente oito horas até Ryan acordar. Ele estava realmente perdido.
-- Descanse um pouco camarada. Isso pode ficar feio. – Seth suspirou enquanto colocava o Capitão Aveia de volta na estante.
Era hora de trabalhar. E isso significava colocar para tocar Death Cab for Cutie, com o repeat ligado. Alguns bons livros. Kavalier & Clay. E seu favorito – Pé na estrada.
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Ele folheou os livros em busca de respostas. Sem muita certeza do que poderia encontrar, mas achava que tinha de existir alguma coisa. “A literatura não é a história das emoções humanas?” Kerouac tinha de ter uma resposta. Ele tinha passado meses na estrada conhecendo diversas pessoas. Ele saberia como lidar com um criminoso. Como fazer amigos. Como ser interessante. Lidar com situações constrangedoras. As coisas certas a serem ditas nos momentos certos.
Seth folheou as páginas, mas não estava encontrando nada. Não conseguia achar a fala perfeita ou a passagem que lhe mostrasse o caminho. Continuou lendo. Procurando.
Talvez Ryan fosse como Dean, um infrator juvenil apenas aguardando para se tornar um intelectual. Um desajustado que esperava se tornar algo maior. E, se isso fosse verdade, não deveria ser tão difícil. Seth se considerava um intelectual. Eles poderiam discutir literatura, música, artes. Entrar em discussões acaloradas. Tirar sarro. Mas e se Ryan não quisesse conversar?
Isso seria o bastante? Não estava nem perto do curso perfeito traçado para o Taiti. O conhecimento dos ventos. Um sextante novinho. Não era sólido. Ele precisava de um plano sólido. A Operação Amigo Criminoso não seria fácil de ser executada sem um bom plano.
Ele se voltou para o Kavalier & Clay e começou a folhear o livro. As ilustrações o atraíam, mas nada parecia certo. Será que teria de começar do começo?
Talvez ele pudesse fazer alguma coisa diferente, como Josef Kavalier para quebrar o gelo. Um momento que ele e Ryan pudessem guardar só para eles. Alguma coisa que os aproximasse. Ele não fumava, então não poderia fazer um novo cigarro com as bitucas dos velhos, mas talvez pudesse fazer outra coisa. Algo que o fizesse parecer descolado. Eles poderiam jogar Jenga* e ele deixaria Ryan vencer. Mas isso não seria muito...
*jogo eletrônico, disponível na internet.
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...babaca? Na verdade ele só tinha jogado com o Capitão Aveia e, bem, ele nunca respondia.
Ou talvez ele pudesse mostrar sua coleção de histórias em quadrinhos para Ryan. Ele tinha algumas edições de colecionador. Bastante impressionante. Mas e se Ryan detestasse quadrinhos e os achasse babacas?
E música? Bandas Emo. Rock independente. Punk. Será que os outros caras ouviam as mesmas que ele?
Seth se sentiu perdido. O peso do mundo sobre seus ombros. Ele não conseguia achar uma boa resposta. Um plano sólido.
A cama pulou quando ele se jogou nela. Mais do que nunca ele estava se sentindo um perdedor. Um estanho, incapaz de ter amigos reais. Estava triste. E bravo. Queria fugir, mas não podia. Já tinha pensado nisso antes. Não tinha para onde ir. Ninguém a quem recorrer. Estava sozinho. Sem um bom plano.
Ao menos, não dava para ficar pior.
Ele precisaria lidar com isso.
Um dia ele olharia para esse momento e daria boas risadas. Quando ele e Ryan fossem velhos amigos, como irmãos, ele o faria ler esses livros. Encontrar uma resposta para ele. E juntos iriam rir de toda a dificuldade que Seth teve para dizer um simples “oi”.
Seth olhou pela janela para a escura casa da piscina e a escuridão que cobria Newport. Todos estavam dormindo. A quem ele queria enganar? Isso não funcionaria nunca. Ele era o Cohen: o esquisito com quem ninguém da escola conversava. Clark Kent sem a capa. Peter Parker antes da picada. Por outro lado...
-- Está pronto, amigo? – disse Seth, enquanto tirava o Capitão Aveia da estante e colocava ao lado de sua cama. – Tenha uma boa noite de sono. Amanhã começa a Operação Amigo Criminoso. O cavalo não disse nada, mas teve de se manter em pé.-- Nós vamos conseguir. Mas se falhar, sempre vai existir a Summer e o Taiti... – Seth disse ao fechar os olhos para dormir.
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