sábado, 3 de outubro de 2009

Capítulo 3

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O Departamento de Recuperação Infantil estava em silêncio a essa hora. Ryan quase podia vero frio escorrendo pelas paredes das celas sujas e úmidas. Seu olhar se perdeu na escuridão acima de sua cama enquanto pensava em seu irmão. A torneira pingando perto de sua cabeça ditava o ritmo para aquele beco sem saída, Trey devia estar passando por algo dez fezes pior e, por pior que fosse a situação de Trey, ele só conseguia pensar como devia ser difícil para seu pai. Equanto seus olhos fechavam lentamente, ele pensava se voltaria a vê-los.Depois de algumas horas de sono, Ryan foi acordado pelo barulho das chaves na porta de sua cela. Um dos guardas abriu a porta com um estrondo.-- Atwood, vamos.Ryan sentou-se na cama meio grogue. Era uma intimidação. Ele colocou os sapatos do uniforme do centro de recuperação e...


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...seguiu o guarda até a àrea de visita, onde viu como familias e amigos recuperavam o tempo perdido. Ryan se perguntou para onde estava indo. Sabia que ninguém iria visitá-lo, tinha certeza de que a única pessoa que sabia que ele estava ali era seu irmão, e ele estava na prisão. Mais uma vez Ryan estava sozinho, sem ninguém. Mais uma vez, Ryan estava sozinho, sem ninguém. O guarda o anunciou em uma sala privada, separada das famílias felizes e dos amigos sorridentes. Ryab entrou, de cabeça baixa.-- Oi Ryan, Sandy Cohen.Ryan levantou os olhos e viu um homem bem vestido, sentado a uma mesa no centro da sala.Ryan sentou-se no banco, de frente pra ele. O homem mal olhoy para cima, enquanto folheava uma pasta de arquivo. Ryan presumiu que fosse a sua ficha. E estava certo.-- O tribunal me designou como o seu defensor público."Ótimo!", pensou Ryan. "Alguém do outro lado".-- Podia ser pior."Na verdade, não", pensou Ryan ao lembrar-se de sua mãe, de A.J., de seu irmão e da razão pela qual estava lá e, agora, Sandy Cohen, em seu belo terno. Não dava para ficar muito pior do que isso. Ryan mal ouviu o que Sandy disse depois. Tudo o que ele queria saber era:-- Onde está meu irmão?Sandy examinou a outra pasta sobre a nesa,-- Trey? Trey tem mais de 18 e roubou um carro. Trey tinha um revólver na cabeça e 30 gramas de maconha na jaqueta...E Ryan não conseguiu ouvir ais nada. Ele sabia que seu irmão tinha ido embora pra sempre. Que talvez nunca mais fosse vê-lo novamente. Ryan culpava A.J. por isso tudo. Se A.J. e sua mãe não tivessem feito o que fizeram, Trey nunca teria saído de casa e acordado Ryan, levado Ryan para uma festa, fugido dos caras a quem devia dinheiro e roubado um carro. E ryan não teria deixado Theresa sozinha. Ryan não teria acordado tomado um tapa na cara. Sua mãe não estaria bêbada e ele não...


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... precisava ter ligado o trabalho para dizer que ela estava doente. Trey acabaria voltando para casa depois de vir da casa de alguma garota. Ele... bom, ele levaria o McMuffin de Theresa e tudo estaria normal. Ryan apertou os dedos dentro do sapato, tentando conter a raiva e o medo. Engoliu algumas lágrimas enquanto raspava as unhas pelo lado de dentro do sapato, tentando não mostrar nenhuma emoção. Ele era bom nisso. Tinha feito isso a vida toda. Tinha aprendido que se você não mostra emoção, ninguém pode de machucar.Mas Sandy sentiu o nervosismo no corpo de Ryan e tentou mudar de assunto,-- Trey não é assunto meu. - Sandy folheou mais alguns papéis enquanto tentava conectar-se com o garoto sentado à sua frente. Sandy sentia por ele. Já tinha estado alí. Em um certo momento, ele tinha sido Ryan. O garoto do lado errado da estrada. O pai timha ido embora e a mãe nunca estava por perto. Mas ele tinha conseguido sair dessa realidade e via em Ryan a mesma chama que um dia ele teve. Sandy olhava as anotações sobre Ryan. Suas notas eram baixa e a frequencia ruim, mas ele tinha noventa por cento de acerto nas provas. Nem seu próprio filho acertava tantas questões. Esse garoto tinha potencial.-- Você já pensou no seu futuo? Tem algum plano?Mas Ryan continuava fechado em seu mundo. Pensando se as coisas algum dia iriam voltar ao normal. Pela primeira vez em muito tempo ele quis ir pra casa. -- Ei garoto, eu estou do seu lado. Quando quiser me ajudar eu...Ryan saiu de seu mundo e olhou para Sandy.-- A medicina moderna está avaçando de um jeito que a média de vida chegará a 100 anos. Mas eu li um artigo que dizia que a Previdência Social deverá falir por volta de 2025. O que significa que as pessoas vão precisar permanecer em seus empregos até os 80 anos - Ryan fez uma pausa - Então, não quero me comprometer com nada tão cedo.


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"Garoto inteligente, talvez inteligente demais", Sandy pensou enquanto um sorriso aparecia em seu rosto. Ele pediu ao guarda para ficar a sós com Ryan. O guarda saiu e os dois ficaram em silêncio por um momento, enquanto Sandy organizava seus pensamento. Ele queria ajudar o garoto.-- Veja, vou contestar a acusação e alegar contravenção. Você é réu primário. Terá direito a liberdade vigiada.Ryan concordou com a cabeça enquanto esperava o "mas". Sempre há um "mas" nessas situações.-- Mas saiba: roubar um carro porque seu irmão mais velho mandou é idiotice. E é fraco... quer mudar isso?"Ótimo", pensou Ryan. "Outra lição de um homem que mal me conhece". Sandy continuou, mas Ryan só conseguia pensar em Theresa. Provavelmente, ela estava acordando agora, procurando por ele. Ele se sentia mal, queria estar com ela, abraçá-la e saber que as coisas ficariam bem. Por que ele foi sair com Trey? Por que foi acreditar nele quando disse que sairiam daquela cidade?-- Estou falando sério, um garoto inteligente como você deve ter um plano, algum tipo de sonho ou...Agora Ryan já tinha ouvido o bastante. Não aguentava mais aquele sermão. Sandy Cohen não poderia compreendê-lo. Não importava o que ele dissesse, o único que entenderia sua situação era Trey. E ele tinha sumido.-- De onde eu venho, ter um sonho não torna ninguém inteligente. Mas saber que ele não vira realidade, torna -- disse Ryan, lembrando-se da conversa com Trey na noite anterior.Ryan pressionou seus dedos contra a sola do sapato e lutou com suas emoções. Sandy ficou sem palavras.O guarda voltou e levou Ryan de volta para a cela para que se trocasse. Ele estava livre para ir para casa enquanto aguardava a audiência.


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Sandy ficou esperando com Ryan do lado de fora do Centro de Recuperação. Tudo estava quieto. Então o barulho do Chevrolet Nova interrompeu o silêncio e Ryan soube que era sua mãe. Ela entrou na vaga acelerando e pisou no freio quando bateu o para-choque ao subir na calçada bem na frente deles. Ryan tinha certeza de que a mãe estava pelo menos um pouco bêbada - se não muito - e teve medo do que poderia acontecer se ela chegasse muito perto de Sandy. Ele poderia sentir o cheiro de álcool e entregá-la, então ela seria levada. Ryan ficaria sem ninguém. Toda a sua família na prisão. O pensamento o assustou.-- O que foi que eu fiz pra merecer essa família? Você pode me dizer?Se puxasse o ar com força, Ryan consseguiria sentir o cheiro de tequila no hálito de sua mãe. Ele virou a cabeça. Sandy viu a vergonha nos olhos de Ryan e tentou facilitar a situação.-- Olá, Sra. Atwood. Sou Sandy Cohen, advogado de Ryan. - ele estendeu a mão e deu um passo à frente. Mas Dawn continuou perto do carro, ignorando o gesto. Ryan estava aliviado. Sandy não sentia o cheiro de bebida de sua mãe.-- Você deveria deixar ele apodrecer aí dentro. Como o pai. E como o irmão. Vamos, Ryan.Ryan respirou profundamente, agradeceu Sandy com a cabeça enquanto ia para o carro. Sandy ficou inquieto por um momento, desconfortável com a situação e começou a falar antes de ter a chance de pensar.--Vou lhe dar meu cartão.Ele olhou para Dawn,que tinha batido a cabeça ao entrar no carro.-- E o número da minha casa... se precisar de alguém. Se as coisas passarem dos limites... me liga.Ryan pegou o cartão de Sandy e colocou no bolso. Ele não disse, mas no fundo sentiu um certo alívio. Ninguém nunca tinha lhe oferecido ajuda antes. O gesto de Sandy não tinha sido em vão.


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Ele entrou no carro sem olhar para trás e foi embora com sua mãe. Sandy o observou partir e ficou pensando se o garoto ficaria bem.O Nova derrapou ao parar na entrada mal cuidada da garagem da casa dos Atwood. Dawn saiu batendo a porta. Ryan a seguiu de perto. Entraram em sua pequena casa, do tamanho de um trailer. Tudo estava velho pelo uso. "Um indicadivo da vida que temos", Ryan pensou.-- Não aguento mais isso, Ryan! Não aguento! Você também quer jogar sua vida fora? Não vou ficar assistindo.A viagem de carro havia sido silenciosa, mas Ryan sabia que isso iria acontecer. Sabia que sua mãe estava furiosa. Não importava quão furiosa sua mãe estivesse com ele ou com seu irmão, ela sempre tinha algo a dizer. Dawn abriu o armário e puxou uma garrafa de tequila. Serviu-se de uma dose e continuou gritando. Ryan tentou desculpar-se, mas não adiantou.-- Eu não aguento. Quero que você saia da minha casa. Quero você fora daqui.Dawn virou a bebida e acendeu um cigarro. A.J. levantou-se da cama-- Você ouviu sua mãe, cara. Arrume suas coisas e vá embora.Era o fim. Primeiro A.J. tinha começado isso tudo e agora ele estava o expulsando de uma casa que não era dele. Ryan já tinha aguentado de mais. Ele partiu para cima de A.J.-- Esta casa não é sua, cara.E a briga começou. Ryan deu o primeiro soco, mas A.J. era rápido e desviou. Ele agarrou Ryan pela camiseta branca e o jogou no chão. Ryan ficou lá, em estado de choque. Esperando que alguma coisa acontecesse. Qualquer coisa. Mas nada aconteceu. Sua mãe virou mais uma dose e deu uma trago no cigarro. Nem ao menos olhou pra ele.


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Ryan levantou-se e foi para o seu quarto. Pegou a mochila preta que tinha desde a terceira série, a única mala que já tivera, e começou a enchê-la com suas coisas. Quando terminou, deu uma última olhada ao redor; embora não soubesse para onde estava indo; não tinha certeza se um dia voltaria. Murmurou um adeus mais para si do que para qualquer coisa e saiu pelo corredor, passou pelo quarto vazio de Trey e saiu pela porta da frente.Subiu em sua bicicleta e foi descendo a rua. Passou pela casa de Theresa e dos Ramirez. Passou pelos quintais cheios de mato e de peças de carros e pelo sinal da Larch Street. Pensou em voltar e ir para a casa de Theresa, mas não podia fazer isso. Precisava ir embora. Rápido.Ele percorreu todo o caminho até a loja de bebidas da cidade vizinha. Deixou a bicicleta no chão e entrou pra comprar outro maço de cigarros com parte do pouco dinheiro que tinha. Do lado de fora, sentou-se na pequena mureta de concreto que cercava o estacionamento e pensou no que fazer depois. Foi para o telefone público e começou a ligar para todo mundo que conhecia. Até para Theresa. Mas ela não estava em casa e não tinha secretária eletrônica. Continuou ligando. Ninguém estava em casa. Ninguém o queria. Chutou o telefone por causa da frustração e procurou nos bolsos por algum trocado. Ele precisava continuar telefonando. Só tinha mais 25 centavos. Seus bolsos estavam vazios. A única coisa que encontrou foi o cartão de Sandy Cohen, que tinha o telefone de sua casa no verso. Ryan estava desesperado. Ligou a cobrar.De volta a Newport, Marissa tinha acabado de voltar de mais um dia na praia quando viu seu vizinho, Sandy, sair acelerando sua BMW. Ela ficou curiosa para saber onde ele iria com tanta pressa. A família Cohen nunca a interessara muito. Mas tinha alguma coisa na pressa de Sandy que fez Marissa parar. Parte dela queria estar naquele carro, partindo aceleradamente para...


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...algo novo, e outra parte estava claramente curiosa. "Talvez o Sr. Cohen faça parte de algum tipo de máfia", pensou, "e esteja fugindo como Tony Soprano". Mas aí ela riu. Sandy era simpático e honesto demais para fazer algo fora da lei, e Newport era muito tradicional -- e limpa-- para deixar criminosos entrarem na cidade.Lá em cima, em seu quarto, Marissa começou a se preparar para mais uma noite em Newport. Ela e Luke tinham combinado sair para jantar e encontrar todo mundo na casa e Holly depois. Quando entrou no closet, escolheu o vestido Pucci. Talvez pudesse usá-lo essa noite. Mas ao experimentá-lo e olhar-se no espelho, soube que não conseguiria. Não era o estilo dela e todos notariam. Por mais que quisesse sair de Newpot, ainda não estava preparada para ser diferente.Sentado na mureta enquando esperava Sandy chegar, Ryan puxou o maço de cigarros que tinha acabado de comprar. Pegou um e, quando estava quase colocando o cigarro na boca, ouviu a voz de Theresa ecoando em sua mente "se achamos nossas vidas ruin agora, imagine como seria se não tivéssemos sorte". Ele virou o cigarro de cabeça para baixo e colocou de volta no maço. Desespero, lógico. Mas, talvez, a sorte o encontrasse em breve.Sandy parou sua BMW novinha e antes que Ryan percebesse, estavam se afastando do mundo que Ryan conhecia.À medida que se distanciavam, o cinza de Chino ia se transformando no dourado de Newport Beach. Chevrolets e Fords iam se transformando em Mercedes e Range Rovers. Gramados sujos viravam campos de golfe perfeitamente aparados. Estradas de concreto davam espaço à areia quente e dourada. Crianças brincavam na praia e casais observavam o pôr-do-sol. O céu era limpo e claro. E o ar, quente.


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Quando entraram pelos portões do condomínio privado dos Cohen, o sol estava quase se pondo. Sandy reduziu a velocidade quando um carrinho de golfe passou na frente deles. Ryan olhou para Sandy. Ele nunca tinha estado em uma vizinhança onde carrinhos de golfe e BMWs dividiam a mesma rua. Na verdade, ele nunca tina visto nenhum dos dois em sua vida. Chino não era exatamente conhecida por seus campos de golfe ou carros luxuosos. Ryan estava quase sem fala, mas estava curioso demais para ficar quieto.-- Este... este carro é muito bom. Eu não imaginava que advogados como você ganhassem bem.Sandy deu um sorriso. Esse garoto era realmente esperto.-- Não ganhamos. É da minha mulher.Agora Ryan estava mais curioso. -- O que ela faz?-- Está vendo isso?Com a mão para fora da janela, Sandy apontou as mansões que os rodeavam. Ryan olhou. Ele estava pasmo.-- Tudo isso?Sandy pensou por um minuto.-- Quase tudo...Definitivamente, Ryan nunca tinha visto algo como Newport Beach ou as casas que via passando pela janela. Ele achava que Theresa vivia em uma boa casa, com tela na porta da frente, que sua mãe tinha colocado para deixar entrar a brisa no verão, e com a cerca de metal que Ryan tinha ajudado o irmão dela, Arturo, a colocar num verão. Era melhor do que a maioria das casas da vizinhança. Mas isto era diferente. Isto exalava dinheiro e conforto. Ryan não sabia o que estava fazendo ali e pensou em fugir.Sandy pegou a entrada da garagem de uma das maiores casas do quarteirão. Ryan começou a sair do carro, mas Sandy o segurou.-- Você se importa de esperar um pouco? Tenho muita coisa a explicar.


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Ryan não disse nada. "Do que ele estava falando?"-- Era o que Rick sempre dizia a Lucy quando... Esquece!Eu já volto.Ryan concordou. Sandy desligou o carro e estava prestas a sair quando foi pegar a chave da ignição. De repente ele tomou consciência da situação. Ali estava ele deixando um garoto que tinha tentado roubar um carro 24 horas atrás sozinho em sua BMW. Por outro lado, queria mostrar a Ryan que confiava nele.-- Não tem graça se a chave estiver no carro -- disse Ryan.Sandy sorriu, apreciando a atenção de Ryan, e saiu do carro, deixando as chaves.Ryan ficou em silêncio, sem conseguir acreditar na situação em que estava. Bancos de couro, ar-condicionado, rádio e CD player. E não naquela cela escura e úmida. Sem mãe bêbada gritando. Sem A.J. bêbado e irritado. Só a música nos alto-falantes.Dentro de casa, Sandy começou a explicar a situação para sua esposa, Kirsten.-- Você o trouxe para casa?Como era de se esperar, Kirsten não estava exatamente empolgada com a perspectiva de ter um ladrão hospedado em sua casa. Sua linda casa. Onde tudo era meticulosamente planejado e bastante caro: a geladeira e o fogão Viking, o piso de ladrilhos espanhóis e as bancadas de granito. Mas, por mais zangada que estivesse, Kirsten não estava completamente surpresa com o fato de Sandy trazer um estranho para casa. Era por isso que ela o amava. Ele tinha um coração de ouro.-- É só por um fim de semana. Até o Serviço Social abrir na segunda...Kirsten pensou por um momento.-- Ele dorme na casa da pscina.


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-- Temos cinco quartos que não usamos. Mas Kirsten lançou-lhe um olhar e Sandy soube que essa não era uma luta que ele pudesse ganhar. Seria na casa da piscina. Kirsten estava saindo da cozinha.-- Aonde você vai?Kirsten virou-se. -- Guardar minhas jóias no cofre.Sandy ia dizer alguma coisa quando ela o interrompeu. -- Onde acha que eu vou? O garoto vai precisar de lençóis limpos, toalha, escova de dentes...Kirsten saiu da cozinha exatamente quando seu filho, Seth, estava chegando. Seth tentou para-la.-- Que garoto? -- Pergunte ao seu pai -- Kirsten respondeu.Sandy sabia que precisaria explicar tudo para Seth também. Seth entrou, foi até o armário e começou a se servir de uma tigela de cereal. Sandy o olhava, pálido, sem muita certeza do que dizer. Seth achou que ele estava olhando seu cereal.-- Não está muito crocante, eu sei, mas não fica encharcado. Olha...Seth encheu a boca e ficou com ela aberta. Então triturou o cereal com os dentes. Sandy concordou. Tinha entendido.-- Seth, tem esse garoto, Ryan. Um cliente meu. Eu, bem, sua mãe e eu decidimos deixá-lo ficar aqui durante o fim de semana. Ele não vem de uma boa família e não tem para onde ir no momento. Então, vamos cuidar dele.Seth pensou por um momento.-- Interessante... tipo um irmãozinho -- ele disse finalmente.Vários pensamentos passaram por sua cabeça. Ele sempre quis um irmão. Alguém que pudesse moldar, ensinar e...-- Humm. Não exatamente. Ele tem a sua idade.A expressão de Seth mudou enquanto colocava mais uma colherada de cereal na boca. Ele não estava feliz.-- Certo. Um homem de 16 anos. Meu melhor amigo. Obrigado, pai. Vamos nos dar superbem. Como gatos e ratos, peixes e ursos, leões e...


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-- Seth, não é isso...-- Não, tudo bem. Vou estar no meu quarto.Sandy tentou convencê-lo a ficar, mas Seth já tinha subido as escadas e ido para o quarto ler seu último livro de quadrinhos.Do lado de fora, na entrada de carro, Ryan estava ficando chateado. Ele precisava fumar. Abriu o maço e viu o cigarro da sorte. A voz de Theresa encheu sua cabeça. "Sorte", ele pensou, "que coisa estranha". Queria saber se ela estava em casa agora. Se quando entrasse poderia ligar para ela. Se Sandy realmente o deixaria entrar.Na porta ao lado, Marissa saiu de casa. Estava prestes a ligar para Luke quando reparou em Ryan, na entrada de carro da casa dos Cohen.Seus olhares se cruzaram.Ela sorriu para ele. Ryan ficou chocado com sua beleza. Alta, magra e bronzeada. Cabelo castanho-claro e olhos verdes. Maravilhosa.Marissa percebeu que ele estava olhando. Ela estava curiosa e desconfortável com a situação. Nunca o tinha visto antes.-- Quem é você?-- Quem você quiser que eu seja. -- Ryan tentou descontrair.-- O.K. -- Ela respondeu."Deus, essa foi péssima", Ryan pensou. E colocou um cigarro na boca.Marissa pensou na péssima resposta, mas logo esqueceu enquanto o observava. Ela estava encantada. Ele era diferente. Ela precisava dizer alguma coisa.-- Ei, posso filar um cigarro?Ryan aproximou-se e estendeu-lhe o maço. Ela pegou um e o colocou entre os lábios. Ambos hesitaram um pouco e, então, se inclinaram para que as pontas do cigarro se tocassem. Uma faísca surgiu entre os dois.O coração de Marissa acelerou. Isso era melhor do que qualquer vestido Pucci.-- Então, o que está fazendo aqui? De verdade.


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Ryan não tinha certeza do que deveria dizer. A verdade? Uma mentira? Mas não tinha muito tempo para pensar.-- Roubei um carro. Bati em um telefone público. Na verdade, foi meu irmão que fez isso. E, como ele tinha uma arma e drogas, está na cadeia. Eu sai, mas minha mãe me expulsou de casa porque estava furiosa e bêbada, e o Sr. Cohen me acolheu.Marissa começou a rir, pensando: "Ele não está falando sério, ou está?". Ryan ficou sem graça.-- Não, de verdade. Você é o primo deles de Boston, certo?Agora Ryan tinha entendido. Ela não estava rindo da situação dele -- ela simplesmente não acreditava. Ele entendeu.-- Sim, Boston.Ryan estava prestes a perguntar seu nome, mas Sandy apareceu. Marissa jogou imediatamente o cigarro nos arbustos. Ryan continuou fumando.-- Olá Sr. Cohen. Estava conhecendo seu sobrinho.Sandy ficou um pouco surpreso, mas entrou na história. O garoto era bom.-- Ah, sim, meu sobrinho favorito, Ryan. De Seattle.Mas eles não estavam em sintonia.-- Seattle?-- Marissa perguntou rapidamente.Mas Ryan foi mais rápido. -- Meu pai vive lá. Minha mãe mora em Boston.Sandy sentiu a tensão no ar e mudou de assunto rapidamente.-- Estamos todos animados com o desfile de moda beneficiente de amanhã."Não, o desfile!", Marissa pensou, enquanto olhava nos olhos de Ryan. Sua válvula de escape estava bem na sua frente e tudo o que ela conseguia era falar sobre o que mais a assustava. Deus, como ela queria entrar em casa, vestir seu novo vestido e mostrar para Ryan que ela era diferente. Mas Sandy continuou, e ela era muito educada para interrompê-lo.Enquanto Sandy e Marissa continuavam conversando sobre o evento para arrecadar fundos, Ryan desligou. Ele não...


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...conseguiu evitar se perder na beleza e na voz suave de Marissa. Nenhuma garota que ele já tivesse conhecido falava com tanta graça e sofisticação. Nem mesmo Theresa. Ryan olhou para o maço de cigarros aberto que ele tinha enfiado no bolso. O cigarro da sorte tinha sumido. Olhou para os arbustos e viu o cigarro de Marissa ainda queimando. Ela tinha fumado o cigarro da sorte. Ele entrou em pânico. Isso significava que ela ficaria com toda a sorte? Ou eles teriam de dividi-la? Ele olhou para ela e, novamente, sentiu a ligação. A chama. Era isso que era a sorte?Marissa virou-se para Ryan.-- Ei, você poderia ir. Dar uma passada. Se não tiver outros planos.Ele era exatamente o que ela precisava para voltar a achar o desfile interessante.Ryan encolheu os ombros. Estava fingindo estar tranquilo. Marissa sorriu para ele, que estava começando a acreditar em amor à primeira vista ou algum outro clichê do tipo, quando Luke parou com sua caminhoneta e Marissa despediu-se. Ryan não conseguia tirar os olhos deles enquanto o carro arrancava.-- Quem era? -- Luke perguntou para Marissa enquanto o carro se afastava. Ela hesitou.-- Ninguém. Só um primo dos Cohen. Mas ela sabia que era mais que isso... ele era diferente.Luke concordou e flexionou os músculos peitorais por baixo de sua camiseta Volcom. Ele era um atleta bronzeado, loiro, de olhos azuis -- muito ingênuo para sentir-se ameaçado por outro cara. Luke começou a falar sobre as ondas fantásticas que tinha pegado com os amigos naquela tarde. Marissa mal ouvia enquanto estavam a caminho do Crab Shack para o jantar. Ela não conseguia tirar a imagem de Ryan de sua cabeça. Ele era melhor do que qualquer Pucci que ela pudesse comprar.


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Sandy e Ryan caminharam pela entrada da garagem até a casa. Ryan deu uma tragada no cigarro. Sandy reparou.-- Não se fuma nesta casa.Ryan fez uma pausa. Nunca algguém tinha lhe dito para não fumar. Ele não estava acostumado com adultos que tivessem regras, mas não queria arranjar mais nenhum problema. Então, jogou o cigarro na calçada.O interior da casa era ainda mais fantástico do que o exterior. Ryan ficou mudo enquanto seguia Sandy pela cozinha até a casa da piscina. Lá encontrou Kirsten, que lhe mostrou o quarto onde ficaria durante o fim de semana. Ela era educada, porém, distante.Ryan ficou pensando se os Cohen teriam outros convidades em casa. Eles certamente tinham quartos de hóspedes naquela casa enorme. Talvez ele não fosse o primeiro garoto que Sandy trazia para casa. Talvez os outros tivessem pegado os quartos de hóspedes e, para ele, tivesse sobrado a casa da piscina. "Mas ao menos tem uma cama", Ryan pensou.Sandy e Kirsten desejaram-lhe boa-noite e deixaram Ryan sozinho. Ele tirou a jaqueta e as botas e as colocou direitinho sobre a cadeira que estava no canto. Então tirou o jeans, dobrou e colocou por cima. Entrou no meio dos lençóis limpos e macios da cama. O quarto era silencioso. Não parecia nem um pouco com sua casa.Enquanto Ryan estava deitado ainda acordado neste lugar estranho, ele pensou em A.J., no seu pai, em Trey e em sua mãe, e tentou entender para onde a vida iria levá-lo. Será que voltaria a vê-los ou teriam sumido para sempre?Finalmente ele dormiu segurando a correntinha de couro que usava no pescoço, a última coisa que seu pai tinha lhe dado antes de ir para a prisão. A última vez que ele se lembrava de fazer parte de uma família.

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