terça-feira, 17 de novembro de 2009

Capítulo 8

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Ryan sonhou com Marissa. Sonhou que quando acordasse ela estaria deitada ao seu lado. Que eles ficariam juntos.
Mas, quando o sol bateu nas janelas da casa da piscina ela já tinha ido embora. E ele estava sozinho.
Kirsten chegou batendo na porta.
-- Seth? Seth, você está aí?
Seth sentou-se no colchão em que tinha passado a noite. Sua cabeça doía. Ele estava tonto. Deitou-se de novo.
Kirsten entrou feito um furacão.
-- Graças a deus – ela disse quando encontrou o filho. Mas, então, percebeu seu olho roxo. – O que aconteceu com seu rosto?
Seth tocou o rosto e lembrou-se da briga da noite passada. Era bem provável que ele tivesse um olho roxo. “Que legal”, pensou. – Entrei em uma briga. Acontece.
Mas não era isso o que Kirsten queria ouvir. Ryan percebeu que ela estava brava, e que o culpava.
-- O quê? Com quem? Por quê?
-- Não sei direito. Eu estava bêbado. – Seth sentou-se, ainda mais tonto. – Acho que ainda estou.


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Kirsten o pegou pelo braço, sem saber se gritava ou se chorava. Seu bebê estava bêbado e tinha entrado em uma briga.
-- Vamos. Pra casa. Agora – e ela o puxou para fora, dirigindo a Ryan um olhar frio. Ryan sabia que estava lascado. Que esse era o fim de sua estada na casa dos Cohen.
Seth acenou tchau. Ryan forçou um sorriso.

Deitado ali sozinho na casa da piscina, Ryan ficou pensando em sua casa. Ele estava voltando. Sabia disso. Olhou para a cama vazia onde Marissa tinha dormido e pensou em Theresa. Agora ele sabia como ela tinha se sentido quando ele desapareceu. Essa podia ser a parte boa de voltar para casa. Ao menos poderia desculpar-se por abandoná-la no meio da noite.
Ryan juntou suas coisas e entrou na casa. Olhou para a mesa vazia e pensou que poderia ao menos fazer uma coisa legal para retribuir a hospitalidade dos Cohen. Então, começou a preparar o café da manhã para eles. Era a única coisa que ele tinha aprendido a fazer na vida para deixar as pessoas felizes. Era a única coisa que ele tinha aprendido que aliviava a ressaca de sua mãe e a deixava calma, pelo menos por um tempo.
Ele tinha acabado de cozinhar os ovos quando Kirsten entrou. Enfurecida. Pronta para jogar Ryan na rua. Mas quando o viu, e viu o bacon e os ovos... não conseguiu brigar.
-- Olha, Ryan. Não quero bancar a vilã... – Ela olhou para a mesa. – Um café da manhã completo, pronto para ser saboreado. – Ryan viu seu olhar.
-- Eu fiz. Costumava fazer o café da manhã na minha casa. Minha mãe não era exatamente uma boa cozinheira, então...
Agora que ela não conseguia brigar mesmo. – Desculpe. Você parece um bom garoto...
-- Tudo bem. Eu entendo. – Ryan tinha entendido. Ele sabia que isso iria acontecer. Ele pegou a mochila. – Você tem uma...


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...família muito legal – ele disse enquanto saía. E ele realmente achava isso.

No andar de cima, Ryan procurou Seth. Ele precisava se despedir. Bateu na porta do quarto e viu Seth, embriagado, sentado na cama.
-- Ei, cara. Então, estou indo.
-- Você está indo embora? – Seth levantou-se. – Ai, minha cabeça. Minha primeira ressaca... interessante... O que aconteceu?
-- Eu... uh... preciso voltar. Tentar resolver as coisas em casa – Ryan disse em voz baixa. Era mais difícil do que ele tinha imaginado.
-- Legal – Seth entendeu rapidamente. – Legal, não. Mas, tudo bem.
Ryan estendeu a mão, pronto para dizer adeus. Mas Seth foi tomado pela emoção, esticou os braços na direção de Ryan e deu-lhe um grande abraço. Ryan bateu nas costas dele, sem saber o que fazer. Isso era estranho, mas era bom. Ele não tinha recebido muitos abraços na vida.
-- Eu vou até Chino, visitar você. Você pode me mostrar o seu mundo.
Ryan pensou nos problemas que tinham tido na noite anterior e no tipo de vida que ele tinha em Chino. Os dois não se misturariam.
-- Uh, huh... – ele disse, tentando não ofender.
Mas Seth não estava ouvindo. Ele foi rapidamente até a escrivaninha e abriu uma gaveta. Dentro encontrou um mapa e o trouxe para Ryan.
-- Talvez tenha algum lugar para onde você queira ir. É bom pra ter idéias.
Ryan sorriu para Seth. – Obrigado. – E foi embora. Seth era legal.


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Seth ficou sozinho em seu quarto. O Capitão Aveia estava olhando para ele, e...?
Seth pegou o cavalo. – A Operação Amigo Criminoso tinha sido um sucesso.

Do lado de fora, Ryan esperou no carro. Enquanto Sandy se despedia de Kirsten, Ryan pensava se sua família estaria em casa nesse momento. O que ele diria quando chegasse?
Sandy ligou o carro e deu ré para sair da entrada de carro passando pela casa de Marissa, que tinha acabado de sair de casa. Ela estava em pé, sozinha, esperando. Ryan olhou para ela e seus olhares se cruzaram pela última vez. Quem irá salvá-la agora? Ela ficou olhando enquanto eles se afastavam, pensando que nunca mais o veria. Depois da noite anterior, ela não se importava de ele ser uma farsa. Ele era sua válvula de escape. Seu colete salva-vidas nesse mar turbulento. Seu vestido Pucci. Ela não o esqueceria nunca.
Os portões do condomínio fecharam-se atrás deles. Fizeram o percurso em silêncio, enquanto as praias douradas de Newport, lentamente, voltavam a ser o concreto frio de Chino.
À medida que Ryan via o dourado transformando-se em cinza, ele ia pensando sobre sua vida, sobre tudo o que tinha acontecido com ele. Sentia-se sozinho e abandonado. Seu pai estava na prisão, seu irmão também e sua mãe não queria nada com ele. E agora ele tinha estragado a única coisa boa que tinha acontecido em sua vida há um bom tempo. Olhou para Sandy, que tentou forçar um sorriso. “Esse é o fim”, pensou. Para onde ele iria a partir dali? Ele tinha tido sua chance na vida e arruinara tudo.
Sandy saiu da rodovia e entrou em Chino.
Os prédios pichados gritavam de desespero. Essa era sua casa. Uma cidade cheia de abandono, onde as pessoas vagavam sem objetivos pela vida. Ryan pressionou os dedos contra a sola dos sapatos. Sentiu um nó na garganta e ele começou a sentir-se morto para o mundo à medida que sua casa chegava mais perto.


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Sandy parou o carro na frente da casa e descarregou a bicicleta de Ryan, que estava no porta-malas. Eles ficaram ali, o silêncio incômodo aumentando já que nenhum dos dois sabia o que dizer. Então, Ryan tomou a dianteira:
-- Então, obrigado. Por tudo.
-- Vou garantir que tudo fique bem, Ryan. Prometo.
Ryan agradeceu com a cabeça e virou-se para caminhar em direção à porta. Sandy começou a segui-lo. Mas Ryan não queria que ele visse a tristeza que era sua família.
-- Tudo bem. A partir daqui eu me viro. – Então ele se lembrou do que Sandy tinha dito quando chegaram na casa dos Cohen. – Tenho muitas explicações a dar.
Sandy concordou e voltou.
Ryan respirou fundo e começou o que parecia uma grande caminhada até a sua casa. A cada passo que dava, o nó em seu estômago ficava mais apertado. Ele estava com medo e nervoso. Será que as coisas poderiam voltar a ser como eram? Ele poderia ir direto para o quarto sem falar com ninguém?
Chegou na porta e pegou as chaves. Suas mãos tremiam. Colocou a chave na fechadura e virou, preparado para o pior, mas a porta se abriu.
Não estava trancada.
Ryan, cuidadosamente, empurrou a porta até que se abrisse completamente, e entrou. Não estava preparado para o que iria ver.
A casa toda estava vazia. Abandonada. Não havia vestígio algum de sua família.
Ele andou pela casa observando o vazio.
No balcão da cozinha, encontrou um bilhete: “Ryan, desculpe. Não consigo”.
Ele amassou o bilhete e pressionou os dedos contra os sapatos. Sentiu a meia rasgar. O buraco apertou o seu dedão.
Esse era o fim.
Do lado de fora, Sandy viu a porta completamente aberta. Sabia que algo estava errado e entrou na casa.


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Ryan estava em pé, sozinho.
Sandy entrou e viu a casa vazia. Ele não tinha escolha.
-- Venha, vamos embora.
E Ryan virou-se e o seguiu de volta até o carro.
Ele estava completamente sozinho, sem família. Ele não iria se desculpar com Theresa. Não veria mais a cama dele ou o sofá dela. Nem o Sr. Ramirez e suas duas filhas. Os pássaros do gueto. Trey. Sua família. Eles tinham ido embora.
Ele entrou no carro.
Sua mente estava silenciosa.
Fizeram o percurso em silêncio. Ryan com a cabeça apoiada na janela. Olhando.
As pichações gritavam para ele, mas ele não dizia nada. Ele não tinha respostas.
O cinza transformou-se em dourado, o concreto em areia. E eles continuaram dirigindo.
Tudo o que Ryan podia ouvir ou sentir eram algumas lagrimas escorrendo pelo seu rosto. Ele não estava pronto para voltar à casa dos Cohen, mas sabia que não tinha escolha. Não tinha outro lugar para ir. E ninguém a quem recorrer.

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